29 de março de 2012

Não esteja vindo, venha!

- Anda, vem pra cama!

- Já vou, deixa eu só terminar o texto.

Era sempre um texto. Sempre com essa demora. Escrevia pra ninguém, ao mesmo tempo que era pra todos. Ela não sabia o que era. Perguntava sempre, mas eu sempre saia com a resposta:

- É o amor. Qual a graça no amor se não o seu mistério?

Ela aceitava essa resposta, nunca ficava insistindo. Nunca gostei dessa resposta, mas ela não era de insistir. Ela não gostava de discutir. Ela é o amor. Misteriosa que nem ele. Um dia mostrarei-a o texto. Eu acho que ela os procura quando não estou. É mais um mistério sobre o texto misterioso para a misteriosa. Vou parar de escrever, ela tá quase dormindo.

- Estou indo, amor!

- Não esteja vindo, venha!

Ela aceitava a minha resposta, hora de aceitar a dela.

15 de março de 2012

Singularize

E no meio daqueles milhares que estavam com ele, ele era o único sozinho. Numa vibe diferente. Numa vibe boa. Era estranho vê-lo assim, extasiado, num mundo singular. Ele, aquele que sempre arranjava algum defeito na sua vida mas sempre via uma qualidade na vida dos outros. Pseudo-otimista, digamos assim. Era sempre assim, menos hoje. Ninguém o notava, eram muitos e estavam ocupados. Ocupados não, se ocupando. E ele sempre com fone de ouvido, inclusive agora. A música fazia parte daquele silêncio. A música interagia com o seu mundo, que durante um tempo foi só dele. Um tempo nada, no máximo 10 minutos. Para ele era uma eternidade. Calma, espera. Ainda não acabou, deixe-o curtir esse final...