30 de novembro de 2013
Prolongando
O vento batendo no rosto, os olhos lacrimejando levemente. O cabelo indo pra trás numa intensidade que me força a ajeitá-lo. As faixas no asfalto passam rápido, quase tão rápido quanto passam os postes de luz. Os arbustos não passam de um vulto e as árvores (se é que tem) não passam de sombras. O escuro do fio se confunde com o escuro do céu, que é iluminado unicamente pelas poucas estrelas, apesar do sol limpo. Se esse momento tem um defeito é este: a falta de estrelas. Sempre preferi o céu da serra. Imagina isso aqui lá. Anda, foca, ajeita o cabelo de novo e termina essa descida. Ufa! Acabou. Consigo definir as formas dos arbustos, as faixas estão mais claras e, sim, aqui tem árvores. Quero de novo. Sobe a ladeira, pensa na descida. Que ladeira enorme, mas vale a pena. Pronto, luzes passando rápido, não consigo ver os arbustos. Faixas passando rapidamente, de um lado pro outro, de um lado pro outro, de um lado pro outro. Vou pular. De um lado pro outro, de um lado pro outro. Tudo escuro. Ralei o cotovelo.
26 de novembro de 2013
Mulheres-alguma-coisa
As músicas, ou melhor, os estilos de música são facilmente transformados numa mulher e então imaginados como se fossem uma e como viveriam.
A bossa-nova, por exemplo, seria a que usa um vestido-curto-e-florido, somado a um óculos escuro simples, que servisse só para amenizar os raios solares e não como acessório, a uma sandália rasteira que ficasse presa aos pés e, para terminar, a um arco para organizar o cabelo ou um chapéu, esse sim servindo de acessório. Frequentaria a Rua do Lavradio, a Praça São Salvador e não iria à festas, sendo mais chegada a encontros em casas de amigos, embora sua casa estivesse sempre aberta. A bossa-nova seria (é) sexy e um pouco vulgar.
| A mulher-bossa-nova indo se divertir em algum local comum às mulheres-bossa-nova |
O jazz seria a mulher uma década mais velha que a bossa-nova - que vive seus 25 anos - e andaria com um vestido médio, escuro, com um colar que brilhasse, embora não roubassem as atenções do vestido. Gostaria de usar brincos pequenos, porém charmosos, como uma pérola, e um salto-alto-médio, só para melhorar a postura. Frequentaria bares fechados que cheirassem a charuto, com o som nem-auto-nem-baixo com um pouco de reverb (este com um pouco de chiado devido à idade), e os seus frequentadores conversariam sentados, servidos por um garçom conhecido e respeitado por todos. Chamaria a bossa-nova para seus bares, embora essa só fosse uma vez por semestre. Mesmo assim manteriam contato. Seria sexy sem ser vulgar.
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| O provável lugar de encontro das mulheres-jazz. |
O samba usaria sandália rasteira ou havaiana, shortinho e uma blusa regata lisa. Chamaria atenção não pelo corpo ou pela beleza, mas sim pelo molejo. A mulher-samba dançaria como poucas. Seria amiga da bossa-nova e acharia a mulher-jazz metida. O cabelo seria solto, curto e seria arrumado em não mais que cinco minutos. Repetindo, o charme estaria na dança. Tomaria cerveja, teria muitos amigos e frequentaria a casa deles, a rua deles, a sua rua, mas a sua casa não receberia os amigos, devido a bagunça, que a faria sair mais de casa. Essa bagunça não seria intolerável, mas ela acharia que sim. Sexy, menos vulgar que a bossa-nova, porém menos respeitada pelos machos que a rodeariam.
A mulher-pagode seria parecida com o samba, tentaria ser que nem ela, embora fosse esnobada. Por causa dessa rejeição seria mais vulgar e ainda mais mal-falada pelos que convivem com ela. Vestir-se-ia igual, frequentaria os mesmos lugares, com amigas parecidas, mas jamais seria o samba. Vulgar, nem tão sexy.
A mulher-Tom-Zé merece uma descrição mais simples que a outra, porém uma descrição só dela. Seria amiga de todos, respeitada por todos e exigiria muito esse respeito. Brincalhona, meio maluca, porém respeitada. Não seria bonita, até um pouco feia, mas todo mundo gostaria de avançar à segunda casa com ela.
A mulher-MPB não autorizou a escrita desse parágrafo.
Nota: caso não entenda o (não) parágrafo da MPB, procure saber.
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