20 de janeiro de 2013

Entrudo

     É carnaval. Aquele sentimento de "é carnaval" no ar. Bêbados, os que querem ficar, homem, mulher, música, confusão, multidão. Tudo isso passa a ser suportável porque, ah!, é carnaval.

     Antes de ir ao bloco troca de celular, passa o chip pra um mais velho. Pega a cerveja que deixou gelando pra tomar no caminho e abre. Desceu maravilhosamente bem, principalmente pelo calor do dia e frio da cerveja que, segundo ele, nunca combinam tão bem quanto no carnaval. Calça o seu All Star mais velho, aquele branco com listras vermelha e azul quase na sola, já todo sujo, do jeito que ele prefere. Merda!, apoiou a cerveja no móvel de madeira e deu uma manchadinha. Depois ele veria que era só água e que sairia com um papel higiênico comum. Vai correndo porque o bloco já está começando. Acaba de lembrar que são 10 e pouquinha da manhã e já começou a beber. Ah!, é carnaval. Vai andando num ritmo acelerado para a rua do bloco que era a 15 minutos da rua que ele morava. Só parou pra comprar outra cerveja que, apesar de não estar tão gelada, desceu tão bem quanto a primeira devido a sua sede.

     Vai, curte o bloco e no final vira pro amigo e faz um cinco com os dedos e os dois começam a rir. O amigo faz um quatro, como resposta. Pelo número menor, que dá pra imaginar o que significava, o amigo paga uma cerveja para ele e essa, com sabor de vitória, foi a melhor do dia. (E olha que já tinham sido mais de dez!).

     Já são 17 e muito e eles vão para outro bloco, perto de onde ele mora. No final do bloco o mesmo ritual, a conta zera e o amigo faz um três com os dedos. Ele levanta com um sorriso de orelha a orelha o dedo do meio. Um. Agora é ele quem paga a cerveja. Gosto de derrota, pensa ele. Mas logo olha para o amigo e fala baixo, como se não quisesse falar, só pensar: "Gosto de amizade!" Ao final do dia, vícios e amigos. Foi assim por todo o carnaval.

5 de janeiro de 2013

Memória Móvel


    Através da cortina limitada, um tênue brilho anuncia o raiar do dia. Esfrego o olho, tá meio embaçado ainda. Ponho o óculos e começo a reconhecer tudo ao meu redor.
    O que aconteceu ontem? Cadê meu celular? Como cheguei em casa? Perguntas e mais perguntas. As respostas foram aparecendo. O celular ficou na calça jeans, a mesma que eu usei ontem e que serviu de pijama pra essa noite de sono. Ou foi dia? Que horas eu cheguei, afinal? Não acredito, mandei mensagem pra ela de novo. "Tenho saudades de nós" "Eu já te esqueci, me liga se quiser ser meu amigo." Não, não quero ser amigo dela. As memórias deletadas vão sendo resgatadas aos poucos.
    “’Cheguei!’ A primeira coisa que pensei. Tento reconhecer o lugar dando uma de Sherlock Holmes mas a tentativa foi falha. Não to entendendo o que eu estou fazendo aqui. Cadê meus amigos? Aqui tem pessoas, cadê gente? Sigo andando, procurando algo que chame a minha atenção. É um mundo novo, talvez seja por isso que esteja estranhando. As coisas continuam sem chamar a minha atenção. Vou andando mais, conhecendo, vendo mais a excentricidade dessa gente. Essa gente que antes, a pouco menos de 2 minutos, eram apenas humanos crus. Meus olhos ficam fixados a cada olhar. Acabou que eu que tive que me adaptar. Mas foi tudo tão fácil, tomara que seja assim, a partir de agora. Estranhamento, nada mais que isso. Sinto falta de alguma coisa. (foi nessa hora que eu mandei a mensagem) Não me leve a mal, me leve apenas para andar por aí. Prefiro assim."
    Ainda não quero ser amigo dela.